27 de abr de 2007

Plantações de árvores exóticas: não cultive esta idéia. Nossos campos e coxilhas agradecem!

(Campanha do Núcleo Amigos da Terra / Brasil)

Nas últimas décadas, o crescente investimento em plantações de árvores exóticas para fins comerciais no Brasil tem tornado cada vez mais freqüente a estratégia, usada tanto pelo governo como pelas empresas produtoras de celulose, de associar o plantio comercial de monoculturas de árvores à idéia de 'florestamento' ou de 'reflorestamento'. Entretanto, uma área onde se concentram milhares de árvores de uma mesma espécie (e onde a nenhum outro tipo arbóreo é dada a chance de crescer e se desenvolver) não deve ser relacionada a uma área florestal, muito menos ainda a uma floresta brasileira. No nosso país, uma área de floresta apresenta relações entre flora e fauna bem mais complexas e uma biodiversidade bem mais abundante. Ou seja, o plantio comercial de monoculturas de árvores exóticas deve ser desassociado da idéia de florestar, sendo bem mais aceitável a idéia de plantações de arbóreas ou de monoculturas de árvores.

No entanto, se o uso do termo 'reflorestamento' para nomear o plantio de monocultura de árvores exóticas já é por si só demasiadamente impróprio, quanto mais inadequado não será a utilização do termo 'reflorestar' para definir o plantio destas mesmas árvores em pleno campo nativo sul-riograndense. Os campos do Rio Grande do Sul, que se estendem de norte a sul do estado, fazendo parte de pelo menos dois importantes biomas brasileiros [1], são compostos por cerca de 3000 espécies diferentes de plantas [2], que na sua composição de flora podem ser considerados tão ricos quanto uma floresta tropical. Portanto, a idéia de que a expansão dos plantios de árvores por sobre as áreas de campos constitue-se num imenso benefício para o meio ambiente gaúcho, em função de que haveria um incremento na quantidade de florestas no estado, é uma grande falácia! Sendo os campos naturais gaúchos ricos em diversidade de flora, como podemos aceitar que eles sejam gradativamente substituídos por plantações de uma só espécie arbórea???

Atualmente, o Rio Grande do Sul possui uma área ocupada por monocultivos de eucalipto, pinus e acácia de aproximadamente 400 mil ha. Entretanto, estima-se [3] que em pouco mais de uma década mais 1 milhão de hectares de terras gaúchas, em sua maior parte formadas por campos, estarão convertidas em 1 milhão de hectares de 'desertos verdes [4]'. Isto porque o desejo do atual governo gaúcho, de ver instaladas pelo menos duas grandes fábricas de celulose [5] no seu território até 2010, alimenta um megaprojeto de expansão das áreas plantadas árvores exóticas. Com a justificativa de 'desenvolver' a economicamente retraída Metade Sul do estado, planeja-se a inauguração, em poucos anos, de uma unidade da Votorantim Celulose e Papel e de uma nova unidade da Aracruz nesta região, cada uma capaz de produzir 1 milhão de toneladas de celulose branqueada/ano, o que necessitaria de uma pujante e vigorosa base 'florestal' de eucaliptos, composta de pelo menos 300 mil novos ha [6].

Agregando-se estes dados aos projetos de expansão da Tanac (de Montenegro) e da Seta (de Estância Velha), produtoras e grandes exportadoras mundiais de cavacos e de taninos vegetais a partir da acácia-negra, os prognósticos de que o Rio Grande do Sul, antigamente conhecido como 'Celeiro do Brasil', passará a ser conhecido como um dos maiores pólos de madeira e celulose do país, estão se tornando cada vez mais reais. No caso da acácia, cuja extensão de cultivo já se aproxima dos 100 mil ha, a Tanac chegou sozinha, em 2004, a responder por 27,5 mil ha deste total, planejando expandir ainda mais sua área nos próximos anos [7]. Isto, sem falar que tanto a Tanac, como a Aracruz e a Votorantim Celulose e Papel estão investindo milhões de reais na ampliação de seus terminais no SuperPorto de Rio Grande [8], com vistas a aumentar o escoamento de seus produtos pela via hídrica.

Além disto, ao norte do Rio Grande do Sul, nos campos da Serra Gaúcha, a empresa Cambará produz celulose[9] e papel a partir da distribuição e plantio de 3,5 milhões de mudas de pinus/ano, capaz de fazerem avançar 2300 novos hectares de pinus (P. Elliottii e P. Taeda) por sobre as coxilhas serranas ano após ano. Também, no litoral sul gaúcho podem ser encontradas vastas áreas cobertas por pinus, tendo ocorrido, nos últimos anos, até problemas com incêndios [10]. Em 2001, mais de 150 mil hectares do Rio Grande do Sul já eram ocupados por plantações destas árvores [11]. Então, aqui cabe lembrar que as espécies do gênero Pinus têm sido registradas como potenciais invasoras de áreas abertas, sejam degradadas ou ocupadas por vegetação herbáceo-arbustiva (Ziller, 2000), como a dos campos.

Assim, pode-se dizer que este é o atual quadro 'florestal' do Rio Grande do Sul: megaempresas beneficiadoras de madeiras e celulose expandindo intensamente suas áreas de árvores exóticas com o apoio, aval e auxílio dos governos federal e estadual, sem que em algum momento se tenha avaliado e discutido com a sociedade os possíveis impactos desta expansão sobre o meio ambiente e a população gaúcha.

Nossas reservas hídricas e nossos solos comportarão a transformação de 1 milhão de hectares de campos naturais em áreas habitadas por gigantescas árvores de uma só espécie, clonadas e de crescimento acelerado? Nosso clima não sofrerá alterações diante de uma mudança ambiental tão brusca como esta? Onde a micro, meso e macro fauna encontrarão os nutrientes necessários para a sua sobrevivência [12]? E quanto a alteração da paisagem dos nossos campos pode influenciar na nossa cultura e inviabilizar o potencial do turismo rural?

O governo gaúcho fala em geração de renda e emprego, coloca a Emater [13] à disposição da Votorantim, acena com atraentes subsídios e financiamentos para a instalação de novas fábricas (como os do Fundopem/RS [14]) e cria o Plofora, através do qual a CaixaRS disponibiliza recursos do BNDES [15] para financiamento da atividade de produção de árvores [16].

Diante do fato de que cada emprego criado tem o alto custo de 116 mil reais [17] e de que a receita média gerada ao produtor oscila entre apenas R$ 87,00/ha/mês, no caso do eucalipto, e R$ 62,00/ha/mês no caso da acácia-negra, pode-se perguntar: estes investimentos beneficiam realmente a quem? Será que os recursos liberados pelo BNDES, empresa pública federal, acionista da Aracruz, que utiliza recursos do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador) para 'desenvolver' o Brasil, financiando parte dos projetos da Votorantim Celulose e Papel [18], realmente contribuem para um desenvolvimento sócioeconômico e ambiental sustentável do estado e do país? Será que os fartos recursos investidos na produção de celulose se fossem aplicados na pesca, no t urismo, na fruticultura e na pecuária não teriam a capacidade de gerar muito mais emprego e renda às populações locais, preservando nossa cultura e causando impactos ambientais bem menores?

Indagações como estas inquietam ambientalistas, movimentos sociais, acadêmicos, políticos e pequenos, médios e grandes produtores rurais, de dentro e de fora do Rio Grande do Sul. Os grandes orçamentos gastos em campanhas publicitárias 'pró-reflorestamentos' fazem o possível para disfarçar e ocultar estas preocupações e contradições. No entanto, qualquer cidadão ou cidadã gaúcha, que preze o lugar onde vive, não pode e nem consegue deixar de questionar e se indignar diante de um megaprojeto como este, tão pouco interessante do ponto de vista sócioambiental. É em razão disto que o Núcleo Amigos da Terra / Brasil conclama a todos gaúchos e gaúchas, sejam do meio urbano ou do rural, conscientes da necessidade de preservação de nossos campos e de nossa cultura, a repudiarem o projeto de expansão das monoculturas de árvores no Rio Grande do Sul, dizendo não ao 'reflorestamento'.

Plantações de árvores exóticas: não cultive esta idéia. Nossos campos e coxilhas agradecem!

Texto elaborado por Carla V. Schnädelbach e revisado pela equipe do Núcleo Amigos da Terra / Brasil. Porto Alegre.
amigosdaterra@natbrasil.org.br


[1] Os campos do nordeste do estado, chamados Campos de Cima da Serra, pertencem ao bioma Mata Atlântica. Já os campos da campanha, ao bioma Pampa.
[2] Conforme Boldrini, em 'Campos Sulinos: Caracterização e Biodiversidade'.
[3] Jornal do Comércio, em 22/06/05.
[4] Assim denominadas, por ong's ambientalistas e movimentos sociais, as imensas áreas cobertas por eucaliptos, no Espírito Santo e na parte sul da Bahia.
[5] Em 26/09/05, a empresa sueco-filandesa Stora Enzo, parceira da Aracruz na Veracel (fábrica de celulose localizada no sul da Bahia), anunciou oficialmente um projeto de investimento de 1 bilhão de dólares no RS, que provavelmente será a instalação de uma fábrica de celulose na parte sul do estado (Zero Hora, 26/09/05).
[6] Recentemente, a Votorantim inaugurou em Capão do Leão, município da Metade Sul, o maior viveiro coberto do Brasil, que no auge de sua capacidade de funcionamento em 2006, produzirá 35 milhões de mudas de eucalipto/ano climatizadas (adaptadas ao clima gaúcho), quantidade capaz de fomentar mais de 30 mil novos ha de 'florestas' por ano!
[7] Segundo reportagem do Correio do Povo, em julho deste ano, a Tanac começou a ampliação de sua unidade de cavacos de acácia-negra, no município de Rio Grande, com investimentos de 2 milhões de dólares. Também, manifestou a intenção de aumentar a plantação de acácia na Metade Sul, investindo mais 6 milhões de dólares.
[8] Localizado no litoral sul do estado.
[9] São 3 mil toneladas/mês de celulose sulfito fibra longa branqueada.
[10] Em janeiro de 2005, 400 hectares com plantação de pinus foram destruídos pelo fogo (segundo o jornal Zero Hora, de 31/01/05).
[11] Conforme o Inventário Florestal do Rio Grande do Sul (UFSM, 2001).
[12] No Livro Vermelho, lançado pela Fundação Zoobotânica do RS em 2003, pode-se observar mais de 40 espécies de animais que se encontram em risco de extinção devido à expansão das áreas 'reflorestadas' sobre os campos do estado. Entre elas, encontram-se aves como a águia cinzenta e a noivinha-do-rabo-preto.
[13] Associação Riograndense de Empreendimentos de Assistência Técnica e Extensão Rural
[14] Fundo de Operação Empresa do Estado do Rio Grande do Sul. Os recursos deste fundo podem financiar a instalação, ampliação, modernização ou reativação de plantas-industriais.
[15] Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
[16] De abril/2004 a maio/2005 foram liberados R$ 17 milhões para a formação de 12 mil novos ha de áreas 'reflorestadas' (Jornal do Comércio, em 23/05/05).
[17] Conforme reportagem no Jornal do Comércio de 27/07/05, a Votorantim, com investimentos de 150 milhões de reais ao ano (que se repetirão durante 7 anos), gerará 900 empregos diretos.
[18] Com a soma de 218,9 milhões de reais no biênio 2004-2006 (Jornal do Comércio, 03/05/05).

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