26 de abr de 2007

Transgênicos e Meio Ambiente

por Rafael Fernandes*


A transgenia chegou às prateleiras de nossos supermercados. Invadiu nossas plantações. E sequer conhecemos os efeitos que ela pode exercer sobre a saúde humana em médio ou longo prazo. Alimentos transgênicos são provenientes de plantas que sofreram uma modificação genética na qual são inseridos genes de outro ser vivo, geralmente de outra espécie. No caso mais conhecido e comentado, a soja transgênica recebe genes de vírus e bactérias. Em outros casos são usados microorganismos transgênicos para a produção de medicamentos. A diferença entre a soja transgênica e esses medicamentos é que a cultura da soja se dá livre no meio ambiente, enquanto remédios são produzidos em ambiente confinado.

Não é preciso ser muito pessimista para imaginar o alto risco de contaminação às outras espécies naturais que uma lavoura de soja ou outro alimento geneticamente modificado oferece. A interação de um transgênico com a biodiversidade pode gerar resultados totalmente imprevisíveis e, como tudo que ocorre no meio ambiente, seus efeitos são irreversíveis. A falta de previsão desses efeitos é resultante da complexidade da transgenia. Não cabe aqui estudar ou avaliar minuciosamente como é feita a transferência de genes entre organismos, mas problematizar os riscos que esses processos oferecem ao meio ambiente.

Entre os desastrosos efeitos que se pode prever está o empobrecimento da biodiversidade que afetaria diretamente o equilíbrio ecológico e ameaçaria a segurança alimentar do planeta, através da patente sobre plantas e animais. Na agricultura já se observa que a utilização de transgênicos com resistência a herbicidas, como a soja transgênica RR (Resistente ao herbicida Roundup, da Monsanto), tem causado empobrecimento do solo e exigido um aumento na quantidade de herbicidas usados. Utilizando dados do departamento de agricultura norte-americano (USDA), o cientista Dr. Charles Benbrook publicou um estudo sobre o cultivo de plantas transgênicas naquele país nos últimos nove anos. Ele demonstra que essas plantas utilizam mais agrotóxicos que as culturas convencionais. Segundo Benbrook, a partir do quarto ano de cultivo, as lavouras de plantações com transgênicos necessitam aumentar o uso de herbicidas e agrotóxicos superando os cultivos de não-transgênicos em 16,4 %, considerando a massa de produtos químicos aplicados.

Muitas têm sido as restrições feitas por especialistas em avaliação de impacto ambiental quanto ao cultivo dos transgênicos. Na maioria das vezes, os governos têm cedido à pressão de grandes agro-empresários e das empresas multinacionais liberando o plantio e a comercialização de alimentos provenientes de organismos geneticamente modificados. Está mais que provado que a transgenia não vai acabar com a fome no mundo. A agro-indústria restringe cada vez mais a diversidade de culturas, produz desemprego rural e contribui para a concentração de terras e de renda. Esse tipo de agricultura visa plantar cada vez mais e obter mais lucro. Logo, seu público alvo é o mercado externo e não os famintos do nosso país. Na Argentina, o uso intenso do pacote tecnológico de semente transgênica e agrotóxicos em grandes monoculturas mecanizadas eliminou pequenas propriedades e milhares de empregos rurais. No Brasil, o Bioma Amazônia tem sido devastado a uma velocidade nunca antes vista para dar lugar a fazendas de gado e lavouras de grãos, principalmente de soja, que chegou nos últimos anos e tornou-se o motor do desmatamento e da concentração fundiária. O impacto negativo que os transgênicos causam é social e ambiental.

Ao contrário dos transgênicos, a agricultura orgânica baseia-se na produção de alimentos sem a utilização de agrotóxicos e produtos químicos. Nesse sistema agrícola, o uso de práticas adaptadas às condições regionais fomenta a biodiversidade, melhora o ecossistema e potencializa a atividade biológica do solo. A agricultura orgânica baseia-se na mão-de-obra familiar e visa a geração de renda aos pequenos agricultores. A busca por uma alimentação mais saudável pela parcela mais esclarecida da sociedade, sobretudo nos centros urbanos, tem feito com que os alimentos provenientes da agricultura orgânica tenham agregado grande valor comercial.

A rotulagem de produtos transgênicos foi instituída por Decreto Federal (Decreto 4.680/03) e regulamentada por Portaria do Ministério da Justiça (2.658/03) como forma de garantir ao consumidor o direito à informação no momento de adquirir alimentos. Porém a maioria das indústrias têm desrespeitado a legislação. Somente os consumidores podem mudar o comportamento das indústrias de alimentos. São os consumidores que sustentam a cadeia produtiva que inicia-se nas lavouras e chega até o supermercado. O consumidor consciente da origem dos produtos pode recusar aqueles que causam, em algum momento de produção, danos ambientais ou sociais.

* Graduando em Gestão Ambiental pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul.

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