6 de nov de 2007

Ideologias, Informação e Meio Ambiente




O neoliberalismo, que é a nova face do mesmo capitalismo de sempre, segue agora sem nenhuma oposição mundo a fora, privatizando recursos naturais que deveriam ser usufruídos por todos.

Por Vilmar Sidnei Demamam Berna

De boas intenções – e de boas idéias – o inferno está cheio. O problema por detrás das idéias são as pessoas. Uma idéia que se propõe a se bastar por si própria como explicação do mundo, tende a se tornar uma ideologia. E uma ideologia que se propõe a única verdadeira, tende ao fundamentalismo totalitário. Não é à toa que tendem a não funcionar como explicação e organização de mundo.

Nas últimas décadas vimos fracassar todas as grandes ideologias, seja capitalismo, socialismo e comunismo, e mesmo o autogoverno em pequenas comunidades auto-gestionárias, por que, por detrás delas tem gente, e gente tem inveja, ambição, ganância, arrogância, prepotência, indiferença com a dor alheia, etc.

Por outro lado, gente também tem solidariedade, compaixão, gentileza, amor, etc. As religiões - ideologias em nome de divindades -, tentam a séculos domar a natureza humana, pretendendo a impossível tarefa de só desejarmos e agirmos para o bem e evitarmos todo o mal, e chega a nos prometer paraísos e ameaçar com infernos eternos - ainda assim, as pessoas seguem boas e más, essencialmente.

Com a queda do muro na Alemanha, ruiu também a nossa crença nas ideologias. Ficamos meio órfãos de boas idéias. O neoliberalismo, que é a nova face do mesmo capitalismo de sempre, segue agora sem nenhuma oposição mundo a fora, privatizando recursos naturais que deveriam ser usufruídos por todos, manipulando genéticas para se apropriar da biodiversidade e mercantilizar tudo o que for possível, externalizando para a sociedade os custos de tudo o que coloca no mercado e que não quer cuidar (colocam os carros, por exemplo, e que os governos desviem dinheiro de impostos, que era para empregar em transporte de massa, para construir estradas, pontes e viadutos para os automóveis que atendem apenas 20% da população e levam o engarrafamento daqui para um pouco mais a frente, além de ter de lidar com a poluição do ar que mata 13 mil brasileiros nas cidades todos os anos, e substituir a agricultura que combate a fome por agricultura para alimentar automóveis com etanol e biodiesel, etc.). O modelo segue capitalizando lucros e socializando prejuízos, com sempre fez.

Os defensores deste novo neoliberalismo dizem que o seu diferencial fica por conta da democracia, tida como um valor sagrado, ao contrário dos regimes sob o controle do Estado, que tendem a suprimir a liberdade de expressão. Esquecem de dizer que não fazem isso por algum compromisso moral com a liberdade de opinião, mas por que descobriram que podem usar a informação e a propaganda - na verdade precisam delas - como forma de dominação.

Se no passado essa dominação se dava por meio de chicotes, masmorras e assassinatos hoje se dá pela divulgação de mentiras, meias verdades, mitos, pelo uso intensivo do marketing e da propaganda difundindo idéias, em todos os canais e o tempo todo, de que um mundo melhor é possível, desde que você trabalhe como um escravo a vida toda e ganhe dinheiro suficiente que assegure seu acesso a ele, através do consumo, um mundo maravilhoso onde os cabelos são sempre lindos, os corpos são musculosos e sem barriga, a pele de adultos mantém textura de bebês, as roupas e calçados estão sempre na moda, os carros são cada vez mais velozes e associados ao 'desejo de ir mais longe, o mais rápido possível", etc.

Um mundo igual para todos, onde a felicidade se compra, basta ter dinheiro para usufruir do que há do bom e do melhor. Um mundo que não está ao alcance dos mais pobres e dos trabalhadores apenas por que eles não querem, por serem preguiçosos e escolheram não estudar nem trabalhar para viver das benesses do Estado ou por que escolheram exercer trabalhos subalternos que pagam pouco em vez de se esforçarem mais, se capacitarem mais, e se tornarem trabalhadores melhores, mais bem remunerados.

Em outras palavras, não há nada de errado com o sistema, errados estão os pobres e os que ganham pouco! Uma mentira cruel de um sistema que se apropria dos recursos naturais e da força de trabalho humano apenas para concentrar renda e poder nas mãos de uma pequena parcela da população, enquanto exclui os mais pobres e nega a eles e aos trabalhadores educação de qualidade, moradias decentes com saneamento básico, alimentação suficiente.

Nenhuma educação, nenhum esforço de trabalho, por melhor que seja, será capaz de enfrentar esta estrutura de apropriação de riquezas e concentração de rendas.

Os nazistas defendiam a idéia de que os pobres e os incapazes eram inferiores, uma espécie de peso morto para a natureza que tinha de fornecer recursos naturais e alimentar raças que só serviam para dar despesas e causar danos ao Planeta, e que seriam eliminadas naturalmente. Uma idéia pervertida do princípio natural da evolução das espécies onde apenas os mais fortes e adaptados é que tendem a sobreviver.

Ao eliminarem as raças consideradas por eles como inferiores, estariam dando uma mãozinha à natureza, ao apressar a extinção delas. Talvez vissem a ‘solução final’ (assassinatos coletivos de milhares de pessoas) como um ato de misericórdia, pois estariam abreviando o sofrimento de espécies que iriam desaparecer mesmo, um dia.

Os nazistas acreditavam na idéia de que existia uma raça superior, a deles, naturalmente. Também eram vegetarianos, defendiam os animais, cultuavam a vida ao ar livre e a natureza. Um exemplo de até onde as idéias podem nos levar.

Os defensores do socialismo e do comunismo, por sua vez, dizem que o erro não está na idéia do socialismo ou do comunismo, que são boas, mas no fato de ser preciso ter e manter a força para enfrentar interesses e organizações poderosas, enraizadas há muito tempo, e que se apropriaram do Estado e dos recursos naturais para seus interesses.

E todas as vezes que um povo e seu governante ameaçam enfrentarem estes interesses, são acusados imediatamente de serem inimigos da democracia e das liberdades. Como está acontecendo neste momento com Chavez, na Venezuela. Lênin dizia que "não se faz omeletes sem quebrar ovos" para justificar os massacres contra os próprios operários, a repressão e a censura ocorridos com a queda do Império Russo e a construção da União Soviética. Thomas HOBBES escreveu que "O homem é o lobo do homem" e Lorde Acton que "O poder TENDE a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente".

Dar a metralhadora para gente de boa intenção combater os poderosos é fácil. Tirar deles as metralhadoras depois que chegam ao poder, não é. Este é o drama vivido pelo povo russo e por todos os outros povos que escolheram o caminho da revolução.

Diante dessa realidade, como devem se comportar os jornalistas, professores, líderes comunitários e sindicais, ambientalistas e tantos outros profissionais e cidadãos através dos quais a informação chega ao povo? É possível ser neutro diante de um poderoso que pisa no pescoço de outro mais fraco? É possível não se indignar e se manter neutro diante do massacre que vem sendo empreendido contra a natureza e contra o povo brasileiro, principalmente quando, por sua condição profissional consegue ter acesso a informações e dados privilegiados?

Como ser um profissional engajado sem comprometer a qualidade da informação que, por dever, deve passar ao público? Esses profissionais devem substituir a opinião pública no seu direito de fazer escolhas? É possível, enquanto cidadão, ser engajado e comprometido com uma causa e ideologia e ao mesmo tempo, enquanto profissional, assegurar a pluralidade das opiniões ao mesmo tempo - o que significa dar publicidade às idéias que combatemos?

Sartre disse, certa vez que "ao escrever, o escritor deve solicitar um pacto com o leitor, que ele colabore em transformar o mundo, a sua realidade..." Será esta a saída? Comunicar francamente aos leitores nosso comprometimento, sem meias palavras, para que ele saiba que a informação que está tendo acesso pode - e estará - fatalmente comprometida por nosso olhar engajado?

* Vilmar é escritor com 15 livros publicados. Em 1999, recebeu no Japão o Prêmio Global 500 da ONU Para o Meio Ambiente. É fundador e superintendente executivo da REBIA – Rede Brasileira de Informação Ambiental (
www.rebia.org.br) e editor do Portal ( www.portaldomeioambiente.org.br) e da Revista do Meio Ambiente (www.revistadomeioambiente.org.br). Mais informações sobre o autor: (http://www.rebia.org.br/VilmarBerna/). Contatos: vilmar@rebia.org.br.

Publicado orinalmente em EcoAgência.

Nenhum comentário:

Postar um comentário