16 de jul de 2009

ECO-ALFABETIZAÇÃO NECESSÁRIA


RAFAEL FERNANDES*

Muito temos comentado e ouvido sobre a necessidade de mudarmos nosso modo de vida e protegermos o futuro do Planeta. Todo dia, uma avalanche de conteúdo sobre o que é ecologicamente correto tem invadido nossa mídia. Cientistas das mais diversas áreas têm demonstrado que vivemos uma situação de colapso do ambiente natural e que é necessário mudarmos a realidade atual, em que muito desmatamos, muito poluimos, muito desperdiçamos, muito descartamos e muito aniquilamos nossas possibilidades de futuro. O fato é que a verborragia não mudará a realidade. Nossas sociedades devem se tornar mais sustentáveis, e sustentabilidade, requer conhecimento e tecnologia. Assim a eco-alfabetização (que tanto mencionamos no artigo anterior sobre o Código Florestal) deve se tornar uma qualificação indispensável para políticos, líderes empresariais e profissionais em todas as esferas, devendo ser a parte mais importante da escolaridade, em todos os níveis – desde a escola primária até as universidades, incluindo o treinamento de profissionais.

Em seu livro “As Conexões Ocultas” (Editora Cultrix, 2002), o teórico do pensamento sistêmico, Fritjof Capra, ensina que a alfabetização ecológica (ou eco-alfabetização) consiste na habilidade de entender os princípios ecológicos básicos, quais sejam: a sobra abandonada por uma espécie é alimento para outra; a matéria circula de forma contínua através da teia da vida; toda a energia que promove os ciclos ecológicos provém do sol; a diversidade assegura flexibilidade; a vida desde seus primórdios, mais de três bilhões de anos atrás, não assumiu o planeta através do combate, mas através de redes de trabalho integrado. Da compreensão desses ensinamentos, apesar de muito simples, depende a sobrevivência da humanidade.

Mais do que um novo processo de aprendizado, essas ideias tratam de uma nova visão de mundo. Necessitam que percebamos o Planeta como um todo integrado e não como uma coleção de partes dissociadas, exatamente o oposto da educação fragmentada que temos recebido durante todo o sempre. Embora a eco-alfabetização não seja restrita ao ambiente da educação formal (deve ser incorporada ao cotidiano social), nossas escolas, em seu atual formato pedagógico, não estão preparadas para o desenvolvimento de um pensamento sistêmico – capaz de avaliar todos fenômenos, situações e/ou processos envolvidos, bem como a interdependência que há entre eles. Nesse caso, mais importante e urgente do que propagandear o separação do lixo, os cuidados com a água ou o consumo sustentável, é investir na formação e capacitação de educadores.

* Formando em Gestão Ambiental pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul e membro da Associação Nacional dos Gestores Ambientais (Anagea).

** Artigo publicado pelo Jornal Gazeta Regional (Camaquã/RS), em 16.jul.2009.

Obs.: A parte do texto que cita o livro "As Conexões Ocultas" consta no artigo anterior intitulado "Código Florestal causa insatisfação?" e foi novamente citado devido ao fato de ter sido prejudicado pela edição feita pelo editorial jornalístico. O presente artigo busca recuperar as idéias perdidas na referida edição.


Leia a postagem "Manual do Arquiteto Descalço" (publicação anterior).

Leia o artigo "Código Florestal Causa Insatisfação?", de Rafael Fernandes (publicação anterior).

Arquivo de palestra proferida por Fritjof Capra, no Brasil, em 2002.



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